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RPG, Crime e a Televisão…

Ken luta em torneios, os jogadores não!

Este artigo é apenas um trecho retirado do trabalho "O uso do RPG na escola como possível auxiliar pedagógico" feito por Rodney Querino Ferreira da COSTA, Átila Augusto de LIMA, Fabiana Rodrigues da SILVA e Eduardo GALHARDO, alunos da Unesp. Todos estavam engajados em um projeto de pesquisa sobre como o RPG pode ser utilizado como uma ferramenta pedagógica, e pouco depois do início do projeto ocorreu um crime no estado do Espírito Santo. Prontamente os pais das crianças que participavam do projeto as proíbiram de continuar com as atividades, pois o RPG é algo perigoso…

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Apesar de o RPG possuir vários temas (medievais, futuristas, históricos, cômicos, etc.), os jogos mais famosos e conhecidos pelo público leigo são os adultos ambientados em cenário de terror. No mês de abril de 2005, um crime no Estado do Espírito Santo foi associado a um desses jogos. O sensacionalismo da mídia criou um clima de medo e tabu acerca do RPG, todos os noticiários transmitiram a notícia e alguns canais abertos chegaram a fazer reportagens especiais mostrando seu “perigo”.

 

“Dois rapazes foram presos, na noite de sexta-feira (13), sob a acusação de terem matado três pessoas da mesma família com tiros na cabeça, no Espírito Santo. Segundo a polícia, os crimes foram cometidos por causa de um jogo de RPG ("role playing game" ou jogo de interpretação).” (ZAUPA, 2005).

Muitos editores e estudiosos dos benefícios do jogo se manifestaram a respeito das acusações ao RPG, tendo como argumento o fato de as explicações transmitidas pela mídia não estarem de acordo com os fundamentos do jogo. No entanto, os meios de comunicação mais abrangentes trataram essas informações com descaso, ficando tais respostas restritas a alguns periódicos de pesquisa, a “sites” de internet e a revistas relacionadas ao RPG. Tempos depois algumas matérias sobre as falsas associações com o jogo foram divulgadas (INQUÉRITO DA… 2005, p.17), notícias que, no entanto, não chegaram a ser veiculadas por jornais e telejornais de maior alcance popular. Dessa forma, a pouca divulgação do RPG encontrou o obstáculo causado pela mídia sensacionalista, levando ao público desinformado uma visão destorcida da realidade.

Deve-se tomar cuidado no que tange às interpretações dadas às informações provindas da televisão. Se, por um lado, ela é corruptora, sensacionalista e pobre de conteúdo, por outro, seus argumentos têm grande força persuasiva. É interessante notar o relacionamento paradoxal que os pais mantêm com a televisão, visto que são os primeiros a criticá-la de má influencia para seus filhos, mas moldam muitas de suas opiniões com base nesta, sem buscar maiores aprofundamentos sobre as informações transmitidas. Não se pode menosprezar a força que a mídia exerce sobre a sociedade contemporânea, ela dita modas, opiniões e votos.

Segundo Frade (2002) quanto mais bem informado é um cidadão maior facilidade ele terá de construir suas próprias opiniões. Em governos capitalistas e subdesenvolvidos a desinformação faz com que mantenham maior controle da população controlando muito de sua subjetividade. O poder de veiculação de opiniões já prontas que a televisão tem, destrói com a possibilidade de se exercer pensamentos críticos sobre o que é passado. Desta forma, mesmo quando nos é consciente que a televisão é alienante em quase todos os seus aspectos, ainda nos é difícil discernir aqueles aspectos que não o são. Talvez seja esse o caso que se ilustrou no decorrer dos incidentes com o jogo de RPG e os assassinatos.

Os fatos foram televisionados de forma sensacionalista e seus principais fatos foram postos de lado até se perderem de vista. Quando um assunto é polêmico, a tendência não é diminuí-lo, mas de aumentá-lo, afinal, além de fazer a audiência subir, quem quer saber de um jornal que só transmite notícias politicamente corretas? A resposta pode estar no fato de que a notícia, no mundo capitalista, é uma mercadoria e ela deve ser consumida pelo maior número de pessoas possíveis. Em um mundo em que a ditadura do consumo dita as regras é necessário fazer com que o produto oferecido, no caso a notícia veiculada nos meios de comunicação, tenha um apelo comercial que atraia os consumidores, infelizmente as notícias que mais repercutem entre estes são as sensacionalistas.

 

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Afinal, quem é que mata as pessoas? Se eu vejo um filme do Jason e mato alguém, sou eu que tenho que ir para a cadeia ou a justiça deve proibir a veiculação do filme? Quando pessoas morrem em brigas de futebol, o assassino vai para a cadeia ou a justiça proíbe a prática do esporte por menores de 18 anos? E porque com RPG as coisas tem que ser feitas diferentes? Vai entender…

Névoa Venenosa

Um corpo voa pela janela de um bar, espalhando cacos de vidro na frente de Dehrik, no momento em que este virava a esquina. Faíscas de eletricidade correm pelo corpo da vítima, como se algo o tivesse eletrocutado recentemente. Atrás dele, o leopardo de sua parceira, Sombra, se assusta.

Pantara abaixa-se próximo ao corpo caído, em um misto de tensão e curiosidade.

Ele está vivo, – ela diz a Dehrik.

Dentro do bar, ouve-se o barulho de alguma coisa caindo sobre mesas, fazendo-as se partir. Provavelmente outros corpos.

Isso faz com que eu me sinta em casa. – Dehrik vira seu olhar em direção à porta do estabelecimento.

Dehrik, – Pantara adverte-o, – Controle seu ímpeto. Nós temos um torneio amanhã. Precisamos de você no ringue, não na cadeia.

Eu ficarei bem, – Dehrik afirma. – Você vem?

E precisa perguntar? – Os lutadores adentram um pequeno bar. Ventiladores rodam vagarosamente sobre suas cabeças, tentando em vão dispersar a fumaça de cigarro.

 


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Quem é o próximo? – diz um homem alto que está em pé, de óculos escuros e com um sobretudo comprido até os pés.

Dois homens encontram-se atirados à sua frente, junto a pedaços de mesas e cadeiras por toda parte. Os olhos do homem alto faíscam por trás dos óculos, fazendo-os brilhar na tênue luz do estabelecimento. Mesmo por trás dos óculos escuros é possível notar um brilho azul irreal, como um misto de fogo e eletricidade. As outras pessoas que estão no bar encontram-se paralisadas de medo.

Covardes. – A voz do homem alto ecoa pelo lugar. – E vocês chamam a si mesmos de guerreiros! Eu os chamo de lixo! – O homem alto pega um lutador pelo pescoço e o ergue no ar com apenas uma mão, com a outra prepara-se para acertá-lo.

Se eu fosse você, – Dehrik interrompe-o abruptamente, – não faria isso.

Dehrik… – Pantara falou baixo. Seu leopardo ronronou em desaprovação. O homem alto virou seu rosto em direção aos recém chegados, largando a sua vítima em um canto, como uma criança larga um brinquedo sem utilidade. Faíscas azuis dançando ao redor de seus olhos, por trás dos óculos.

Então um desses molengas possui uma lingua, – ele diz, sorrindo para Dehrik e Pantara, examinando-os cuidadosamente. – Ei, eu conheço você! Você é Dehrik Savitch, o moleque do Brooklyn!

Dehrik cerrou os punhos. O sangue subindo à cabeça. A raiva transparecendo por seus olhos.

Eu acho, – ele responde, tentando se controlar ao máximo, – … que não entendi direito o que você disse.

Eu usarei palavras mais simples para você entender. – O homem alto ri em desdém; – cai fora, garoto. Lutar é coisa de adultos. Crianças como você podem se machucar. Podem até morrer.

Talvez, – disse Dehrik, – você poderia me dar uma demonstração?

Pare, Dehrik. – Pantara toca seu ombro, Sombra ruge para Dehrik. – Ele está tentando irritá-lo.

O garoto possui uma namoradinha, – grasnou o homem alto. – Que bonitnho. – Pantara inconscientemente ficou vermelha de vergonha, e quase instantaneamente respondeu:

Eu já derrotei oponentes maiores e mais fortes que você – disse furiosa. – se você quiser lutar conosco, se inscreva no torneio e nos vemos no ringue amanhã.

Eu acho que não. – Três homens de olhos brilhantes como o primeiro se adiantam de cada lado, como se emergissem das sombras, com casacos de couro preto e óculos escuros. – Eu e meus amigos queremos nos divertir hoje. – Dehrik notou que o bar estava apinhado de gente, alguns tentando escapar sem que o homem alto notasse.

Não precisamos destruir o bar, – disse Dehrik, o mais calmamente que pode, pensando em livrar os inocentes daquela batalha. – Vamos para fora.

Não, – respondeu o homem alto. Faíscas saltavam de seus olhos. – Vou esmagá-lo aqui mesmo.

Você fala demais, – Dehrik salta em direção ao homem. Sombra se joga em combate contra outro deles. Pantara se põe em posição de luta enquanto dois homens se aproximam dela.

Dehrik e Pantara


O homem alto movimenta-se como uma cobra preparando o bote sobre Dehrik, fitando-o nos olhos. Dehrik sente uma vertigem, um frio na espinha que ele não pode explicar, porém seu golpe já estava preparado e um poderoso chute giratório acerta o homem alto, mandando-o longe. No outro lado do bar, Sombra está engajado em combate com outro homem que consegue lhe acertar uma facada, fazendo-a recuar de dor. Pantara, preocupada distrai-se por um momento recebendo um ataque pelas costas. Honra, aparentemente, não é o forte deles, pensa consigo mesma. Irritada, joga uma mesa contra as costas do agressor de seu leopardo.

Enquanto isso, Dehrik solta um grito de Guerra enquanto eletrocuta outro dos capangas. Em instantes o local vira uma zona de Guerra, com lutadores se golpeando por todos os lados, clientes escondem-se atrás do balcão, juntamente com os empregados do estabelecimento. Esta luta de bar faz Dehrik lembrar os velhos tempos no Brooklyn, quando era apenas um marginal de rua. Algo está errado. Dehrik sente-se estranho como se estivesse agindo por instinto e sua mente estivesse em outro lugar. De repente ele vê a si próprio alguns anos mais jovem. Stoner, o seu mentor, grita comandos para ele, que ele não deve lutar apenas por lutar. Que fazendo isso, de nada adiantaria o treino árduo a que se submetia. – Não jogue seu trabalho fora, – Stoner dizia!

Pantara trocava golpes com outro capanga quando notou que o olhar de Dehrik estava “vazio”. – Dehrik, – ela gritava para ele, – atrás de você! – Antes que ele pudesse fazer alguma coisa, um capanga lhe atingiu uma facada nas costas.

O aço gelado cortando sua pele. As coisas estavam ficando sérias. A raiva tomou conta de sua mente e Dehrik sentiu-se como nos tempos do Brooklyn. A resposta á facada veio em um turbilhão de revolta sem honra, técnica ou glória. Cada lutador possui um lado negro, e o homem alto conseguiu trazer a de Dehrik á tona, conseguiu enegrecer seu coração.

O que veio a seguir foi o som de mesas quebrando e vidros se partindo, misturado com o som de gritos de agonia e de raiva. A raiva de Dehrik dava um novo rumo à batalha, em uma fúria cega, golpeando seus oponentes, inclusive derrubando o que lhe tinha acertado a facada. Pantara encontrava-se encurralada entre dois homens, enquanto que o homem alto estava agora frente-a-frente com Dehrik…sorrindo. Um Chi negro e quente envolveu a mente de Dehrik, que só pensava em matar seu oponente, – Mate-o – dizia uma voz em sua cabeça, uma voz fria e calma. Dehrik já não se lembrava dos ensinamentos de Stoner. Dehrik possuía agora um olhar sombrio.

Pantara que liquidara um de seus oponentes e escapara do outro para ajudar Dehrik, desfere um poderoso chute contra o homem alto, que apenas ri da sua inútil tentativa, desviando-se calmamente. Dehrik cerra seus punhos até fazê-los sangrar.

O homem alto se aproxima de Dehrik rapidamente, e de repente ele se vê em um misto de medo e raiva. Seu coração bate aceleradamente sem saber o que fazer, sua camiseta molhada de suor parece extremamente pesada. O homem alto lhe acerta um gancho no queixo. A voz em seu ouvido diz para matá-lo novamente.

A raiva é a única coisa que importa agora, ela faz Dehrik esquecer do medo, esquecer de Pantara, esquecer de Stoner, esquecer dele próprio. Dehrik só quer matar seu oponente custe o que custar. Ele perde completamente seu auto-controle. Dehrik passa a atacar seu oponente impiedosamente visando os órgãos vitais, lutando da forma mais desonrada que Pantara já viu. O homem alto já não consegue acompanhar os movimentos de Dehrik, perdeu seu sorriso sarcástico em meio aos golpes e ao sangue escorrendo de seu rosto, as chamas em seus olhos apagaram-se. Stoner ensinou bem seu discípulo, mas a vida e o instinto de sobrevivência lhe ensinaram ainda melhor.

Shock Treatment

Dehrik aperta com força o pescoço do homem alto, no mesmo instante que descarrega um poderoso Shock Treatment fazendo o esqueleto de seu oponente reluzir em fachos de luz. Pantara horrorizada diz para Dehrik parar, o homem alto apenas grita em agonia. Repentinamente, um golpe acerta forte a nuca de Dehrik fazendo-o cair. Uma onda de paz apaziguou um pouco sua fúria. – Controle sua fúria, ela é sem sentido. – Dizia uma voz com um sotaque indiano. – Fique calmo ou terei de machucá-lo, – Dehrik ainda conseguiu se virar e fitar os olhos brancos de Dhalsim antes de desmaiar…


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Dehrik, acorda meio tonto por causa do golpe que o fez desmaiar. Fôra Dhalsim, o Guerreiro Mundial que pelo visto lhe atacou pelas costas. No chão a sua frente, está uma marca feita com fumaça e cinzas, semelhante a um corpo, como se o homem alto tivesse sido carbonizado pelos golpes de Dehrik.

Mas que inferno? – Dehrik estava tenso e confuso.

Inferno é um termo inapropriado para isto, – disse a voz de uma jovem mulher. Dehrik olhou em volta e viu uma garota chinesa em um sobretudo – Chun Li, outra Guerreira Mundial.

Dehrik estava em um misto de espanto e medo. Estariam eles na cidade por causa do torneio? Se eles formassem um time a derrota de Dehrik e Pantara já estava certa. Será que ele assassinou o homem alto? Dehrik tentava controlar sua confusão mas não conseguia. Ele devia ter ouvido a voz de Stoner.

Vamos, levante-se! – Chun Li pegou-o pelo braço. – Nós temos de ir! – Dhalsim e Pantara aguardavam ansiosos, atrás deles, o bar completamente destruído. Dehrik tentava ficar em pé, mas um misto de fraqueza e medo faziam com que a rua inteira girasse em sua cabeça. Sentia-se perdido e sem esperança. – Quieto, – Chun Li xingava-o, ela tentava escutar algo. Sirenes de polícia podiam ser ouvidas ao longe, mas cresciam rapidamente.

Como ele está? – Pantara se abaixava ao seu lado.

Ele está sofrendo os efeitos da Névoa Venenosa, – Chun Li afirmou. – Ele está mal agora, mas ficará bem.

O que é a Névoa Venenosa? – Pantara estava curiosa.

Dhalsim chama ela de ‘Chi Negro’, – respondeu a Guerreira Mundial. – Os Revenants podem corromper o Chi de um guerreiro, tornando-o uma força de raiva ao invés de harmonia.

Amor, – Dehrik murmurou. Sombra lambeu sua face. – Eu irei sobreviver? Pantara limpou o sangue do rosto de Dehrik. Ela sorriu para ele, ele fêz caretas de desconforto. – Eu sinto como se estivesse me despedaçando por dentro!

Você irá sobreviver.

Isso é bom.

Sirenes soam à distância, crescendo de volume rapidamente.

Nós podemos conversar em outro lugar, – disse Chun Li, se virando para Dhalsim. – Nós temos de ir!

O que está acontecendo comigo? – Dehrik perguntou para Pantara, caminhando com dificuldade, escorado no ombro de sua companheira, seguidos pelos Guerreiros Mundiais.

Você já ouviu falar da Shadaloo? – perguntou Chun Li. Os jovens lutadores balançaram suas cabeças em negação. – Eles são corruptos, ela continuou, sua voz tornou-se ríspida, ladrões, criminosos, terroristas, assassinos.

Aqueles caras trabalhavam para eles?

Sim, – Chun Li respondeu. – Eles são Revenants, servos sem coração do Lorde Bison. Eles infectaram seu Chi.

Como? – Dehrik já consegui ficar em pé, com dificuldade.

Você permitiu que eles envenenassem seu Chi com seu temperamento violento. – Disse Dhalsim calmamente. – Os Revenants apenas são capazes de trazer o seu pior lado à tona, enxendo sua mente de toxinas psíquicas. Névoa Venenosa.

Mas por que eles fizeram somente comigo?

Você sabe bem que sua índole violenta é sua maior característica, Dehrik Savitch, – disse Chun Li. – Provavelmente eles planejaram lhe corromper antes do torneio de amanhã, esperando que você machuque ou mate alguém importante para você. – Savitch e Pantara se olharam assustados. – Bison se alimenta do poder dos guerreiros que ele corrompe, e depois faz com eles trabalhem para ele na Shadaloo.

As ruas estão escuras e chuva desce sutilmente. A luz tênue de postes ilumina os guerreiros na fria noite. Ao longe é possível ver as viaturas investigando o local da briga.

Quem é ‘Bison’? – perguntou Pantara, – e o que ele quer com este torneio?

…e como nós podemos encontrar ele? – Dehrik adicionou.

Chun Li sorriu sem graça. – Nós somos aliados então?

Pode ter certeza, – ele respondeu, – Eu quero acabar com ele. – Ao lado dele, Pantara assentiu.

Dhalsim balançou a cabeça em desaprovação: – Você tem que controlar sua fúria, guerreiro. Ela põe todos nós em perigo se você não aprender a dominá-la. – Dehrik não disse nada. – Eu posso ajudá-lo, se você quiser aprender, – o mestre ofereceu.

Eu aceito.

Isto parece um casamento, – Pantara riu.

E não deixa de ser, – disse Chun Li.

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Este conto é parte integrante do suplemento Segredos da Shadaloo.

Chun-Li e Dhalsim 

Renascimento da Honra

Renascimento da Honra

Lutem – gritou o mestre.

Jackson começou a circular seu jovem oponente. O garoto tinha vivido e estudado com o Mestre por vários anos. Ele era rápido, e sua técnica tinha evoluído muito. As mãos do garoto se ergueram na tradicional posição de defesa do estilo da cobra de Kung Fu. Então o mestre já havia compartilhado este sistema da cobra com o rapaz, pensou Jackson. Ele se lembrou de seus próprios anos de espera para aprender este conhecimento com o mestre, e agora o garoto também o sabia.

O garoto avançou rapidamente no caminhar serpenteante da cobra, suas mãos golpeando como cobras gêmeas. Jackson andou em círculo para evitar os golpes do rapaz. Esquivou de uma das mãos, mas sentiu a outra atingir um ponto de pressão em seu braço.

Hambúrgueres demais, Sr.Jackson — riu o mestre.— Deixam você mais lento.

A determinação de Jackson ficou aparente em sua face contraída, O braço estava ficando paralisado. Teria o mestre começado a ensinar ao rapaz a técnica do Dim Mak?

Quando o garoto avançou novamente, Jackson o recebeu com um soco reverso rodado. O golpe do garoto foi mais rápido, resvalando nas costelas de Jackson antes que o soco reverso acertasse sua cabeça e jogasse o jovem no chão. Sentindo a excitação da vitória iminente, Jackson pulou um determinado ponto ao longo da coluna do garoto, esticou a sua própria mão para o golpe do dedo-serpente e atingiu o ponto de pressão.

Por um instante, nada aconteceu. Jackson estava agachado sobre o rapaz e confuso. O golpe deveria ter induzido uma paralisia instantânea e indolor. Será que a técnica dele tinha se tornado tão desleix…?

Então o garoto começou a gritar em agonia e rolar no chão, colocando as mãos nas costas. Seu corpo se contorcia em uma série de espasmos que pareciam querer rasgá-lo em pedaços.

Jackson ficou ali parado, paralisado de terror. O que ele tinha feito com o garoto?

O mestre empurrou Jackson de lado e ajoelhou junto ao rapaz. As mãos do velho começaram a massagear certos pontos ao longo das costas e pescoço do garoto. O mestre estava aplicando seu próprio Chi aos pontos vitais do jovem estudante, tentando restaurar o dano que Jackson havia provocado. Finalmente, o garoto parou de gritar e a tensão da dor deixou seu corpo. O mestre rolou o garoto para que ficasse deitado de costas e inspecionou os olhos e língua.

Você ficará bem agora, Pao — disse o mestre suavemente. — O golpe do Sr.Jackson foi usado no momento inadequado. Aproveite este momento como uma lição das conseqüências do uso impróprio do golpe Dim Mak, e da importância em saber como curar o corpo antes de aprender como destruí-lo.

Jackson se afastou, xingando a si mesmo. Lembrava agora que o golpe espinhal do Dim Mak causava paralisia apenas durante as horas da noite, quando o Chi do corpo estava começando a se ajustar para o sono. Usá-lo durante o dia, como Jackson havia feito, teria causado uma falha de funcionamento dos rins e uma morte lenta e agonizante se o Mestre não tivesse corrigido o dano. Fazia tempo demais desde a última vez em que Jackson estudou e treinado sua técnica de Dim Mak.

A mente de Jackson percorria os últimos três anos desde que ele tinha deixado a casa de Mestre Kwan. Foi um turbilhão de aberturas de academias comerciais e aulas para iniciantes na arte do kung fu. A primeira escola tinha sido bem sucedida demais, e Jackson foi atraído para o lado comercial das artes marciais na América do Norte. Ele tinha aberto escola atrás de escola, deixando que seus estudantes mais graduados as dirigissem mais como negócios do que como centros de aprendizado.

Mestre Kwan acompanhou Jackson até a sala de treinamento:

Sr.Jackson, siga-me, por favor— pediu o mestre.

Jackson seguiu Mestre Kwan através de uma porta que levava a um pequeno quarto de meditação, ao lado do salão principal de treinamento. O quarto era pequeno e repartido por telas de papel. De costas para uma representação de um serpenteante dragão chinês, Mestre Kwan olhou profundamente nos olhos de seu antigo estudante antes de falar:

Jackson Repreendido

Maurice, o que aconteceu com você?

Jackson balançou a cabeça: — Eu não sei, Mestre Kwan. Foi um acidente, você sabe. Deixei-me levar pela empolgação do combate. O garoto é muito bom, e acho que me senti desafiado.

O mestre olhou para Jackson com seriedade:
Maurice, você tem em suas mãos um antigo e mortal segredo que pode facilmente ser usado para causar grandes desgraças. Mesmo nas suas mãos desleixadas, o Dim Mak se tornou uma arma que pode disparar por acidente a qualquer momento. Você perdeu o seu sentido de propósito — sua dedicação. Você não é mais o estudante que eu um dia conheci.

As palavras do mestre feriram Jackson mais profundamente do que qualquer soco ou chute jamais havia feito.Kwan continuou:

Quando vim para os Estados Unidos, encontrei um jovem rapaz cheio de raiva, cansado da pobreza. Vi o garoto se tornar um homem e dei a ele o maior tesouro que eu tinha. Eu dei a ele o conhecimento do meu kung fu e a técnica secreta do Dim Mak. Agora esse homem se foi, em seu lugar está você, com suas correntes de ouro e carros caros. Você, que vendeu meu tesouro para todos que pagaram pelo programa de treinamento. Está ocupado demais ganhado dinheiro para até mesmo cuidar da sua família. Você golpeia calculadoras mais do que tábuas. Você, Sr.Jackson, perdeu a honra e a dedicação da arte.

Jackson uma vez mais se sentiu como o jovem e violento brigão que tinha entrado na casa de Mestre Kwan anos antes. Sua fúria transbordou:

O que você sabe, velho? — ele gritou. — O que sabe sobre meus sonhos? Eu criei dez escolas que ensinam sua arte. E qual foi à gratidão que recebi de você? Fique com sua honra. Não preciso aturar isso de você. Já engoli sua “sabedoria” por tempo demais. Você não sabe de nada.

A tristeza tomou a face de Mestre Kwan:

Então deixe a minha casa, Maurice Jackson, e não volte até que seja senhor de si mesmo uma vez mais. Devo fazer com que Pao sobreviva a este treinamento, para que alguém possa ensinar meu kung fu honradamente.

Jackson passou furiosamente pelo ancião, batendo a porta com força. Ele cruzou o salão de treinamento, passando por Pao que o olhava chocado. Jackson deixou a casa e marchou pela empoeirada estrada de terra até seu Porsche conversível. Pulou no carro, ligou o motor e arrancou.

A casa de Mestre Kwan ficava no topo de um penhasco com vista para o Oceano Pacífico. A estrada que levava para casa seguia ondulante até o acidentado topo do penhasco, partindo da estrada principal lá embaixo. A raiva de Jackson impulsionava uma corrida alucinada até a estrada principal. Ele fez uma curva fechada e teve que girar o volante totalmente para evitar uma colisão com uma van que quase o atingiu. Jackson desviou e passou pela van, dando uma olhada para trás para observar o grande veículo preto enquanto ele subia pela estrada. Jackson atingiu a rodovia principal e partiu a toda velocidade pela via expressa costeira, indo para longe da casa onde havia passado tantos bons anos de sua vida.

 

 

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Felipe D'aragon

Boa Tarde, Sr.Kwan — disse o homem com forte sotaque de espanhol castelhano.

O terno feito sob encomenda remetia à aristocracia européia. Diversas pessoas entraram pela porta atrás dele, formando uma falange de homens determinados usando ternos escuros.

Sou Felipe D’Aragon. Fiz uma longa viagem para vê-lo.

Mestre Kwan silenciosamente se curvou para Pao,sinalizando o fim do exercício deles. Pao se curvou e caminhou para a borda da área de treinamento enquanto Mestre Kwan se virava para o espanhol.

Eu me lembro de suas cartas, Sr. D’Aragon. Infelizmente sua viagem foi um desperdício. Minha posição não mudou. Eu não ensino a arte do Dim Mak para estranhos, e certamente não para estranhos conhecidos como assassinos da Shadaloo!

Que infelicidade. Não acredito que perceba o quão preciosa é a sua arte do Dim Mak para mim. Com ela eu poderia desafiar Vega, aquele tolo vaidoso, e me tornar à nova mão-direita de Bison. Mas não importa se você não vai me ensinar a sua arte, você vai  morrer com ela. Este é o decreto do Senhor Bison.

Estou velho, mas ainda posso lutar quando preciso.—respondeu Mestre Kwan.

Oh, é mesmo? — debochou D’Aragon. — Você está velho demais para atingir alguém treinado na arte do ninjutsu. Como pode o seu Dim Mak ajudar você se não pode me tocar?

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Jackson olhando por do sol

Jackson olhou para o horizonte debruçado sobre a grade de proteção da rodovia. O local oferecia uma vista espetacular do Oceano Pacífico. Ele novamente recordou os eventos dos últimos anos. Sua preocupação com seu crescente negócio tinha no fim o levado ao divórcio. Não conseguia lembrar quando havia visitado a filha pela última vez. Mas, cara, ele estava rico agora. E você não vê muitos caras negros dirigindo escolas de kung fu em São Francisco.
Suspirou pesadamente. No fundo do coração sabia que não valia a pena. Queria ensinar a alegria e beleza do kung fu, mas ao invés disso havia se tornado um homem de negócios. Ao longo dos anos, seu regime de treinamento rigoroso foi reduzido a malhações esporádicas espremidas entre compromissos de negócios. As pessoas e a arte que ele amava estavam longe dele agora. Mestre Kwan estava certo. Ele havia abandonado o caminho da honra.

Imediatamente após esta conclusão, Jackson sentiu seu espírito se renovar. Uma calma que não sentia em anos entrou em seu corpo. Tinha que retornar para o Mestre Kwan e se desculpar. Tinha que retornar para a vida de um guerreiro.

Quando Jackson estacionou junto à casa, o sol estava se pondo no oceano, criando grandes sombras sobre o chão. A van preta estava estacionada junto à casa e diversos homens de terno estavam de pé ali ao lado, discutindo em  algo que parecia espanhol. Assim que Jackson estacionou, eles ficaram atentos e gritaram um alerta em direção à casa. Jackson sentiu desastre a caminho.

Saltou do Porsche e caminhou rapidamente para a casa:

O que está acontecendo aqui? — gritou. Um dos homens ficou diante dele e colocou a mão no ombro de Jackson: — Não entre.

Saia da frente. Estou em casa aqui, você é o estranho.

Volte para seu carro bonito e saia daqui. — rosnou o estranho com forte sotaque espanhol.

Jackson atacou como uma víbora. Seus dedos atingiram o braço que segurava seu ombro, acertando um ponto vital abaixo do cotovelo do homem. Ele gritou quando perdeu os movimentos e sensações do braço. Jackson o empurrou para o lado e estava prestes a entrar na casa quando outro homem emergiu.

O novo homem era obviamente o líder. Vestia um terno mais fino e mantinha ar de autoridade. Limpando com um lenço branco o sangue da lâmina de uma espada embutida em uma bengala, o homem olhou despreocupadamente para Jackson.

Jackson deu um passo para trás e examinou o recém-chegado. O espanhol olhou para seu companheiro, que segurava o braço paralisado e gritava. Sorriu:

Você deve ser Maurice Jackson.
Sou. Como você me conhece?
Sempre pesquiso os amigos e parentes daqueles que mato. Algumas vezes o seqüestro proporciona uma excelente vantagem.

Jackson subitamente se sentiu mal. Passou correndo pelo espanhol e entrou no salão de treinamento. No centro da área de treino estava o corpo morto de Mestre Kwan. O corpo do jovem Pao estava jogado em um canto.

Kwan não quis me ensinar o que eu queria aprender. — disse o espanhol enquanto seguia Jackson até o salão.
Talvez você seja mais razoável. Meus mestres na Shadaloo me instruíram a adquirir os segredos do Dim Mak, ou extinguir o conhecimento da terra.
Seu maldito filho da
Calma, Não perca o seu autocontrole comigo, Sr. Jackson, ou irá lamentar as  conseqüências. Sou Felipe D’Aragon, ninja e assassino da Shadaloo. Seu mestre não pôde me Derrotar, e você seria um alvo fácil. Quero que me ensine o Dim Mak — continuou o ninja. — Posso fazer com que valha a pena para você, Jackson. Gosta de dinheiro, não? Você largou sua esposa, então talvez algumas garotas bonitas excitem você, certo? Posso arranjar isso. Eu conheço o seu tipo, Jackson. O caminho marcial trouxe a você dinheiro, poder e fama. Pessoas como eu e você estão destinadas a possuir o conhecimento e poder. Dê o seu preço, Jackson.

Jackson caminhou até o corpo de seu mestre morto, O velho estava enrijecido. O sangue formava poças ao redor do seu corpo, oriundo de dúzias de cortes nos braços e nas pernas. O ninja havia aplicado uma morte lenta. Jackson se virou para o ninja e começou a tirar a jaqueta:

O antigo Maurice Jackson poderia ter aceitado sua proposta, Sr. Assassino da Shadaloo, mas não este homem. Este Maurice Jackson fará com que pague pelo que fez.

Que bravas palavras. Infelizmente, já sujei minhas mãos hoje. Não tenho intenção de ficar suado matando você. Homens, matem-no lentamente.

Jackson e os Capangas de Daragon

Os espanhóis — quatro, no total — sacaram facas de seus casacos e avançaram sobre Jackson. Eles começaram a circundá-lo, enquanto D’Aragon observava.

Jackson assumiu a base do kung fu do tigre. Assim que os homens saltaram sobre ele, virou-se para dois deles e rugiu. Chi subiu em sua garganta, amplificando o grito para um ruído trovejante. Os dois homens, atordoados pela força do grito, caíram.

Jackson saltou sobre um dos outros dois que avançavam, girando no ar para cair atrás de um deles. Chutou-o nas costas, fazendo com que voasse através do salão de treinamento.

O quarto homem avançou, golpeando com a faca. Jackson saltou para longe da lâmina e então pulou de volta para cima dele, rasgando o peito do homem com garras de tigre. O homem gritou quando sua jaqueta, camisa e pele foram rasgadas. Jackson concluiu a luta com um chute circular na cabeça.

Os outros dois homens haviam se recuperado do grito e avançaram correndo sobre Jackson. Ele agachou, calculando sua aproximação, e então saltou no ar atacando com as duas pernas. Os chutes atingiram os homens na cara, arremessando-os para a inconsciência.

Tigre Voador Sai da Caverna

Tigre Voador Sai de Sua Caverna — disse Maurice enquanto encarava D’Aragon, dando as costas para os quatro corpos caídos. — Isto é parte do treinamento básico do kung fu do tigre. Estou surpreso que seus homens sejam tão mal treinados.

D’Aragon riu:

Substituir esses idiotas é barato. Existem muitos toureiros cansados na Espanha, loucos pela chance de se igualar a Vega. Sempre Vega. — o espanhol cuspiu enquanto dizia o nome. — Bem, terei que lidar com você pessoalmente.

D’Aragon tirou o casaco e fez golpes no ar com a espada. A fina lâmina silvava conforme dançava nas mãos do ninja. Satisfeito, D’Aragon caminhou calmamente até Jackson.

Jackson mal viu a shuriken a tempo, D’Aragon jogou a lâmina em forma de estrela com sua mão livre enquanto avançava, tentando pegar Jackson despreparado. Jackson se encolheu na “Serpente Armando o Bote”, saindo de lado quando a lâmina passou voando perto de seu peito.

Então D’Aragon saltou sobre ele. Jackson se jogou para trás na Queda do Tigre Ferido, mas o espanhol era rápido e a espada desenhou uma linha de sangue sobre o peito de Jackson,

D’Aragon riu como um gato brincando com um rato:

Você é ainda mais lento que o velho, Jackson.

 

O ninja saltou novamente, cortando o ombro de Jackson antes que ele pudesse rolar para longe da lâmina. O coração de Jackson estava batendo forte. Devia ter sido assim que ele matou Mestre Kwan, pensou Jackson. Um golpe após o outro, como um toureiro enfiando espada após espada em um touro que ataca sem pensar. Jackson tinha que ser mais esperto que isso.

D’Aragon saltou novamente, mas desta vez Jackson rolou sob ele e chutou para cima, atingindo D’Aragon na perna. O ninja se divertiu com o golpe que havia apenas resvalado.

Talvez você me proporcione algum desafio, afinal de contas. — disse D’Aragon. — Mas terá que fazer melhor do que este chute patético se quiser… quiser.., me deter…

O ninja começou a mancar enquanto olhava para a própria perna. Os músculos tremiam incontrolavelmente onde o chute de Jackson havia tocado. A perna de D’Aragon começou a ter espasmos; então a outra perna começou a ter espasmos também, derrubando o ninja no chão.

O que fez comigo? — gritou D’Aragon.

Dim Mak. — disse Jackson. — Os pontos de pressão do kung fu da cobra. Você queria tanto, agora você o tem, Suas pernas nunca mais se moverão, ninja. Seus dias de matança estão acabados.

Eu matarei você por isso! — esbravejou D’Aragon.

Vou chamar a polícia. Não saia correndo — replicou Jackson quando saiu do salão.

Eu matarei você por isso! Você não se livrou de Felipe D’Aragon ou da Shadaloo! — gritou o ninja enquanto Jackson se afastava.

* OBS: Este conto é parte integrante do Módulo Básico de regras de Street Fighter: O Jogo de RPG.